terça-feira, 11 de agosto de 2009

Alma de Escritor

Cinco anos após sua morte, em 2003, o escritor chileno Roberto Bolaño tornou-se um dos mais famosos autores latino-americanos nos Estados Unidos. A tradução para o inglês de seu último romance, 2666 (originalmente de 2004, mas publicada por lá em novembro de 2008), causou um enorme frisson entre os leitores norte-americanos. O livro foi listado pela The New York Times Review como um dos melhores do ano passado e, ainda em março deste ano, levou o The National Book Critics Circle Awards de melhor ficção. Tais conquistas são raras para um autor de língua hispânica que, ironicamente, ganhou status de best seller em um país conhecido por não privilegiar traduções.A tal “Bolañomania” – como definiu a The Economist – é o mais recente exemplo de como um escritor pode ser recriado em outro idioma. O peruano Julio Ortega, professor da disciplina Estudos Hispanoamericanos da Universidade Brown (EUA), em crítica publicada no periódico espanhol El País, ressalta o fato de a versão traduzida ter feito de Bolaño um autor diferente para os norte-americanos. “O Bolaño que se lê em inglês não é o mesmo que é lido em espanhol”, garante Ortega. “Seu texto ganha outra vida, outra função”. O crítico peruano argumenta que a tradução ressalta um aspecto mais vitalista de sua narrativa e a insere dentro de um estilo caracteristicamente yanqui, mais próximo de Jack Kerouac, o beat autor de On the RoadA análise ressoa em outra crítica de Michael Saler, do suplemento literário da edição inglesa do jornal The Times, que atribuiu o sucesso de 2666 à expectativa de críticos e leitores do país em torno do trabalho, já que haviam sido positivamente surpreendidos com o livro anterior de Bolaño, The Savage Detectives, lançado no início de 2008. Saler também destaca a voz exuberante, informal, do autor, que ecoa à primeira vista vários clássicos norte-americanos. “Embora ele tenha citado Huckleberry Finncomo uma inspiração, o livro traz a marca de On the Road e The Catcher in the Rye [de J. D. Salinger]”, diz Saler, para quem são brilhantes as traduções de Natasha Wimmer, responsável por verter as duas obras de Bolaño para o inglês.O caso de Bolaño é mais um entre tantos outros da literatura cujos holofotes são voltados para o trabalho da tradução. O próprio Ortega lembra de Edgar Alan Poe, que foi considerado um autor menor até ser traduzido por Charles Baudelaire, que, em francês, deu nova dimensão à sua obra. Em outro exemplo, Modesto Carone, um dos principais tradutores de Franz Kafka para o português, lembra que a primeira tradução do escritor checo para o espanhol, feita por Jorge Luis Borges, trouxe muito mais do estilo literário do argentino do que de Kafka. No Brasil, quando se deparou com uma tradução de A peste, de Albert Camus, assinada pelas iniciais G.R., Carone teve a certeza de conhecer o escritor por trás do texto em português e mais tarde recebeu a confirmação de que se tratava do grande Graciliano Ramos. “Era quase uma visão do Camus pelo Graciliano, mas era fantástica”, analisa Carone, também escritor e vencedor do prêmio Jabuti de 1999 com seu romance Resumo de Ana.

Por Ruy Barata Neto para a Revista Cultura

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