Autor de textos inesquecíveis, que vão da prosa à poesia com a mesma desenvoltura, Carlos Drummond de Andrade chega às livrarias brasileiras em uma faceta pouco conhecida do grande público, a de tradutor.
Lançamento da editora Cosac Naify (preço sugerido: R$ 78), “Poesia Traduzida” traz boa parte dos mais importantes poemas traduzidos pelo escritor nos anos 1930 e 1940, todos publicados em periódicos da época, muitas vezes sob pseudônimo.
Na lista estão obras de Bertolt Brecht (“Que Foi Que Recebeu a Mulher do Soldado?”), Federico García Lorca (“A Casada Infiel”), Guillaume Apollinaire (“A Casa dos Mortos”) e Dorothy Parker (“Pássaros”), entre outros.
Mais de 60 textos compõem o livro, que comprova o talento de Drummond ao trabalhar com idiomas como o francês e o inglês.
Band
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Espaços de criação da tradução poética
A partir de exemplos de traduções poéticas que possam despertar a consciência do ato de traduzir e inspirá-lo, cotejar-se-ão diferentes teorias da tradução e modos de pensar a criação. Pensar a questão da criação à luz da tradução cultural (e não só a tradução cultural à luz da criação). Chegar a possíveis respostas as seguintes perguntas: quais as diferenças entre tradução literal e transcriação?; traição-in-tradução é ruim?; a tradução inspira?; o quanto a criação (poética) traduz culturas? Por meio destes questionamentos, o curso pretende capacitar os alunos a observarem as suas práticas tradutológicas e criativas.
Programa:
(Alterado em 08.07.11)
09/8: - Apresentação do curso; - Sobre o Projeto Novas Poéticas da Resistência
11/8: - Charles Bernstein
16/8: - Marjorie Perlouff
18/8: - Projeto Sibila & Novas Poéticas…
19/8 - sexta-feira: - Boaventura de Sousa Santos (sociologia da tradução)
23/8: - Projeto Galego (Irish and Galician women poets, in translation)
25/8: - O Poder da Tradução
30/8: - Análises de Cadernos de Tradução , Revista da Oficina de Poesia e POEX.
01/9: - Politics & Poetics (espaços e deslocamentos, tradução e criação)
02/9 - sexta-feira: - Wrapping up with words and unwords ´
Curso de extensão da USP
Programa:
(Alterado em 08.07.11)
09/8: - Apresentação do curso; - Sobre o Projeto Novas Poéticas da Resistência
11/8: - Charles Bernstein
16/8: - Marjorie Perlouff
18/8: - Projeto Sibila & Novas Poéticas…
19/8 - sexta-feira: - Boaventura de Sousa Santos (sociologia da tradução)
23/8: - Projeto Galego (Irish and Galician women poets, in translation)
25/8: - O Poder da Tradução
30/8: - Análises de Cadernos de Tradução , Revista da Oficina de Poesia e POEX.
01/9: - Politics & Poetics (espaços e deslocamentos, tradução e criação)
02/9 - sexta-feira: - Wrapping up with words and unwords ´
Curso de extensão da USP
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Livros, filme e peça marcam centenário de Elizabeth Bishop
Num dos seus mais celebrados poemas, "One Art", Elizabeth Bishop (1911-1979) escreve: "A arte de perder não é nenhum mistério;/ tantas coisas contêm em si o acidente/ de perdê-las, que perder não é nada sério".
Hoje, quando se completa o centenário de nascimento da poeta americana, os leitores brasileiros perdem um pouco de sua obra, que está fora de catálogo no país, sem previsão de reedição.
Livros de Bishop só se encontram em sebos.
Mas, lembra ela, não é nada sério.
Para o tradutor Paulo Henriques Britto, que verteu para o português boa parte da obra da autora (inclusive o verso que abre este texto), a ausência de Bishop das prateleiras não surpreende, dada a falta de interesse dos brasileiros por poesia.
Britto diz que "os leitores de poesia nesta terra são tão poucos que não compensa fazer reedições". "Quantos leitores regulares de poesia haverá no Brasil? Creio que não chegam a mil."
Os anos 90 do século passado apontaram para uma renovação do interesse por Bishop, quando a Companhia das Letras, a última editora a ter os direitos de publicação de sua obra, editou cinco títulos.
LANÇAMENTOS
Nos Estados Unidos, onde o reconhecimento de Bishop como poeta fundamental do século 20 cresceu desde a morte dela, acabam de sair três livros: novas antologias de poesia e de prosa e a correspondência da escritora com a revista "New Yorker".
Organizador da antologia em prosa e um dos principais estudiosos da obra de Bishop, de quem foi amigo, o poeta e professor Lloyd Schwartz se disse "chocado" em saber que a "excelente tradução" de Britto está fora de catálogo.
"De qualquer forma, a publicação, pela mesma editora [Companhia das Letras], de duas traduções de um grande poeta estrangeiro [a outra, anterior à de Britto, foi de Horácio Costa] no espaço de uma década seria algo inédito nos EUA", afirmou Schwartz à Folha.
"Quem sabe o centenário não estimule a Companhia das Letras a reeditar a tradução de Brito?"
A Companhia diz que discute a reedição.
A Leya do Brasil promete publicar em junho o romance "The More I Owe You", de Michael Sledge, baseado no relacionamento de Bishop com a brasileira Lota de Macedo Soares, no período em que a escritora viveu aqui, entre 1951 e o início dos anos 70.
No cinema, está em fase de produção "A Arte de Perder", de Bruno Barreto, com Glória Pires no papel de Lota. O filme é baseado no livro "Flores Raras e Banalíssimas", de Carmen Oliveira.
Outra obra nacional a respeito da poeta, a peça "Um Porto Para Elizabeth Bishop", de Marta Góes, deve reestrear em maio.
Um dos destaques da nova edição americana da prosa de Bishop é a publicação do texto original de um livro sobre o Brasil escrito sob encomenda para a coleção Time Life World Library em 1962.
Segundo Schwartz, na época a editora edulcorou a versão da escritora. "Ela detestou a edição que fizeram. A versão original é muito mais positiva a respeito do modo como o Brasil encarava os seus problemas, em comparação aos EUA, especialmente em questões de raça."
Mas a relação de Bishop com o país onde viveu seus dias mais felizes era ambígua. Deplorava o atraso e o provincianismo locais.
Numa carta ao amigo e poeta Robert Lowell, publicada em "Words in Air - The Correspondence Between Elizabeth Bishop and Robert Lowell" (Farrar, Straus and Giroux, US$ 26), escreve: "O Brasil é mesmo um horror".
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Literatura: Sophia e os desafios da tradução
Lisboa, 28 jan (Lusa) – Os desafios colocados pela tradução da aparentemente simples poesia de Sophia e aqueles que se lhe colocaram ao traduzir “Hamlet”, de Shakespeare, foram um dos temas abordados hoje no Colóquio Internacional dedicado à poeta.
A abrir o segundo e último dia do colóquio que decorre na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a intervenção do tradutor norte-americano de Sophia (1919-2004), Alexis Levitin, que a descreveu como a poeta da “nitidez” e falou da dificuldade de traduzi-la com transparência, da procura da palavra exata – que era uma busca com que a própria Sophia também se confrontava ao escrever – para não escamotear o sentido, da métrica e da música, às vezes até de “uma rima para conseguir uma forma justa”.
A professora universitária Teresa Amado - uma das comissárias da exposição sobre a vida e obra de Sophia organizada com materiais do espólio, doado pelos cinco filhos da poeta à Biblioteca Nacional, onde estará patente até 30 de abril – abordou um aspeto talvez menos conhecido do trabalho da escritora: a tradução que esta fez do “Hamlet”, de William Shakespeare, “feita e repetidamente revista ao longo de um vasto período”.
Na sua comunicação, intitulada “Traduzir com música e paixão”, Teresa Amado leu reflexões da própria Sophia sobre a tradução, que ela classificava como “uma empresa que só pode deixar insatisfeito quem a ela se aventurou”.
Sophia queixava-se da “impossibilidade de traduzir a aura específica da escrita shakespeariana, o seu brilho obscuro” e, referindo-se em concreto a “Hamlet”, escreveu ainda: “É o mundo mais desesperado e mais sinistro de toda a literatura”.
“O local fulcral em que Sophia encontra Shakespeare é na poesia”, defendeu a professora, apresentando vários exemplos de versos ainda de “Hamlet” em que ela conseguiu encontrar as tais palavras exatas, embora a forma nem sempre obedecesse ao original.
Apontou ainda três casos em que, ao traduzir, Sophia citou Camões: duas citações literais e uma musical.
Em seguida, foi a vez de Michel Chandeigne, tradutor de Sophia para francês, fundador da Livraria Portuguesa e Brasileira de Paris e das Edições Chandeigne, principalmente dedicadas ao universo lusófono, falar de “Sophia em França”, cuja obra foi sempre muito bem recebida desde que começou a ser aí publicada, em 1980, pelas edições La Différence, dirigidas por Joaquim Vital, que classificou como “o grande artesão da sua divulgação”, responsável pelo facto de Sophia “ter hoje encontrado o seu público francófono”.
O primeiro Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, promovido por Maria Andresen de Sousa Tavares, filha da poeta e ela própria poeta, em colaboração com o Centro Nacional de Cultura, que reuniu durante dois dias em Lisboa cerca de 40 investigadores, poetas e ensaístas portugueses e estrangeiros, termina hoje ao fim da tarde com uma mesa-redonda de poetas moderada por outro dos filhos de Sophia, Miguel Sousa Tavares.
Nela participarão Ana Luísa Amaral, António Osório, Armando Silva Carvalho, Gastão Cruz, Luís Quintais e Nuno Júdice.
No final da sessão, será ainda apresentado o número de janeiro da revista Colóquio/Letras, da Gulbenkian, que é parcialmente dedicado a Sophia.
Lusa
A abrir o segundo e último dia do colóquio que decorre na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a intervenção do tradutor norte-americano de Sophia (1919-2004), Alexis Levitin, que a descreveu como a poeta da “nitidez” e falou da dificuldade de traduzi-la com transparência, da procura da palavra exata – que era uma busca com que a própria Sophia também se confrontava ao escrever – para não escamotear o sentido, da métrica e da música, às vezes até de “uma rima para conseguir uma forma justa”.
A professora universitária Teresa Amado - uma das comissárias da exposição sobre a vida e obra de Sophia organizada com materiais do espólio, doado pelos cinco filhos da poeta à Biblioteca Nacional, onde estará patente até 30 de abril – abordou um aspeto talvez menos conhecido do trabalho da escritora: a tradução que esta fez do “Hamlet”, de William Shakespeare, “feita e repetidamente revista ao longo de um vasto período”.
Na sua comunicação, intitulada “Traduzir com música e paixão”, Teresa Amado leu reflexões da própria Sophia sobre a tradução, que ela classificava como “uma empresa que só pode deixar insatisfeito quem a ela se aventurou”.
Sophia queixava-se da “impossibilidade de traduzir a aura específica da escrita shakespeariana, o seu brilho obscuro” e, referindo-se em concreto a “Hamlet”, escreveu ainda: “É o mundo mais desesperado e mais sinistro de toda a literatura”.
“O local fulcral em que Sophia encontra Shakespeare é na poesia”, defendeu a professora, apresentando vários exemplos de versos ainda de “Hamlet” em que ela conseguiu encontrar as tais palavras exatas, embora a forma nem sempre obedecesse ao original.
Apontou ainda três casos em que, ao traduzir, Sophia citou Camões: duas citações literais e uma musical.
Em seguida, foi a vez de Michel Chandeigne, tradutor de Sophia para francês, fundador da Livraria Portuguesa e Brasileira de Paris e das Edições Chandeigne, principalmente dedicadas ao universo lusófono, falar de “Sophia em França”, cuja obra foi sempre muito bem recebida desde que começou a ser aí publicada, em 1980, pelas edições La Différence, dirigidas por Joaquim Vital, que classificou como “o grande artesão da sua divulgação”, responsável pelo facto de Sophia “ter hoje encontrado o seu público francófono”.
O primeiro Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, promovido por Maria Andresen de Sousa Tavares, filha da poeta e ela própria poeta, em colaboração com o Centro Nacional de Cultura, que reuniu durante dois dias em Lisboa cerca de 40 investigadores, poetas e ensaístas portugueses e estrangeiros, termina hoje ao fim da tarde com uma mesa-redonda de poetas moderada por outro dos filhos de Sophia, Miguel Sousa Tavares.
Nela participarão Ana Luísa Amaral, António Osório, Armando Silva Carvalho, Gastão Cruz, Luís Quintais e Nuno Júdice.
No final da sessão, será ainda apresentado o número de janeiro da revista Colóquio/Letras, da Gulbenkian, que é parcialmente dedicado a Sophia.
Lusa
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Pound era um gênio da literatura ou blefou?
Ezra Weston Loomis Pound continua um enigma difuso que muitos desconhecem, alguns já leram ou ouviram falar, mas poucos, realmente poucos, o apreciam em suas vertentes viçosas - poeta e crítico, embora também se metesse com música e economia, especialmente no ramo das teorias monetárias.
Como crítico e tradutor é quase improvável refutar o que andou escrevendo, mas o lugar de Pound no panteão dos grandes poetas padece da atmosfera de suspense nunca desfeito.
Pound era exigente. Escreveu um romance, releu e jogou na lareira para não resistir à tentação de publicar algo sem a certeza de ser bom.
E dedicou boa parte da vida a escrever uma obra extensa e incompleta chamada Os Cantos (tradução brasileira de José Lino Grunewald), projetada para ser a Divina Comédia moderna, cheia de citações, algumas em grego.
Ele foi fazendo aquilo sem a certeza de que seria realmente o que almejava - uma nova obra máxima.O diacho é que não apareceu ninguém com estatura e respeito suficientes para ser levado a sério depois de dizer que Pound se ferrou e por qual razão.
Além de inconclusos, Os Cantos padecem do mal da incompreensão. E, pior ainda, da pouca leitura. Eruditos dizem que se trata de grande livro, mas não se esforçam em explicar; poucos se esforçam em entender e quase ninguém fala dele por aí, porque também não saberia explicar a razão de sair por aí falando de Pound.
Talvez falte a Pound alguém como ele, que olhou James Joyce e os escritos dele e saiu propagando aos quatro ventos que havia encontrado um gênio. Claro que Joyce gostou, mas também tratou de fazer seu marketing pessoal: afirmou que escrevia um livro (Ulysses) para dar trabalho aos professores de literatura pelos próximos duzentos anos.
Embora decodificado, o livro de Joyce ainda arranca cara feia de muito sujeito que tenta lê-lo. O certo é que Ulysses virou marco na história da literatura. Os Cantos andam pelos cantos.
Para que os caminhos de Ulysses e Os Cantos fossem tão diferentes, além de o segundo não ter um equivalente a Pound para alardear suas eventuais virtudes, contribuiu o comportamento de seus autores.
Enquanto Joyce levou uma vida meio dândi e não se metia em política - quando falou da Irlanda, ninguém se interessou, a Irlanda nunca despertou atenção de quem não fosse irlandês -, Pound meteu os pés pelas mãos.
Fez programas radiofônicos em defesa de Benito Mussolini e do fascismo. Aquilo não pegou bem. Todo mundo conhece a história. Mussolini se ferrou. Ele tentou fugir para a Alemanha, disfarçado de soldado alemão, com sua amante Clara Petacci.
A resistência descobriu e os dois foram executados e seus corpos pendurados de cabeça para baixo, expostos à execração pública. Destino parecido teve colaboradores de fascistas e nazistas.
Os humilhados e ofendidos estavam soltos e queriam vingança. Acusado de traição, Pound foi preso numa jaula feita com ferros retorcidos de um avião abatido e depois levado para os Estados Unidos.
E ficaria na cadeia o resto da vida se alguns advogados não provassem que o poeta era louco de pedra. Talvez até fosse. Pound fez cara de louco o resto da vida e tratou de manter a boca fechada.
Lugar de louco é no sanatório. Ele ficou treze anos num hospital psiquiátrico de Washington, até a acusação de traição ser retirada em 1958. Pound voltou para a Itália e até 1972 dedicou-se a concluir Os Cantos, tarefa iniciada em 1904.
Os brasileiros Augusto e Haroldo de Campos eram entusiastas dos métodos de Pound. Em uma carta endereçada a Augusto, Pound perguntou se o pessoal da USP não tinha interesse em contratá-lo como professor. A coisa deu em nada.
Quando morreu em novembro de 1972 aos 87 anos, Pound era uma espécie de meteoro que abriu um enorme sulco na superfície da literatura, e cuja obra magna permanecia incompreendida. Mas uma coisa era evidente. Pequeno Ezra Pound não foi.
A influência de Pound se estende sobre uma expressiva parte de tudo que foi revolução estética ou estilo na literatura moderna. Os seus métodos (paideuma) de garimpagem de textos elementares continuam quase as únicas referências para quem quer navegar no turbilhão de páginas literárias produzidas pela humanidade desde alguns milênios.
Sem contar que foi secretário particular de W. B. Yeats e de uma forma ou outra influenciou gente como James Joyce, E. E. Cummings, William Carlos Willians, T. S. Eliot, de quem cortou a maior parte do poeta The Waste Land, ficando melhor que o original e merecendo dedicatória do autor: ‘A Ezra Pound, o melhor artífice’. Se os grandes o reverenciavam, eles deviam saber o que estavam fazendo. Ou não?
Aliás, sobre Yeats, que tentou aprender esgrima aos 45 anos, Pound tem uma frase deliciosa: ‘Ás vezes dava a impressão de ser até mais idiota que eu’. É só uma frase.
Claro que de idiota Pound não tinha nada, apenas se deu mal com a política. Basta ler dois de seus livros de ensaios publicados no Brasil e que servem de guias para adentrar a boa literatura. ABC da Literatura (ABC of Reading, de 1934), em que o autor dá a sua definição de clássico. Para ele, livro clássico é aquele que fica jovem para sempre. Ou seja, um livro que todas as gerações leem e sempre acham algo interessante nele.
Parodiando Dalton Trevisan, ele era do tipo que achava que o nome do escritor é feito por sua obra e não por estripulias, causas políticas ou geniais golpes de marketing - hoje em dia tem muito disso.
Se a obra não o sustentar, o escritor ou poeta pode até se tornar uma figura notável, mas por outros motivos, não por sua literatura. Em outro livro de ensaios, A Arte da Poesia, ele dá conselhos para quem quer se meter a fazer poesia.
Conselhos que valem até hoje: ‘Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como ‘brumosas terras de paz’. Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Receie as abstrações.
Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã’. Era generoso ao orientar os jovens poetas. Muita gente que o leu deixou de passar vexame com poemas cretinos - e outros viraram grandes poetas.
Mais: achava que a poesia medíocre, no fim das contas, é sempre a mesma em toda parte. E em todas as línguas haverá poetas e poemas medíocres. E defendia a importância da literatura, como poucos: ‘A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia’.
E mais: ‘O povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de seu país e de si próprio’. O velho era terrível. E tinha um faro ainda mais terrível para coisas boas. Mas também devia saber que uma coisa é farejar coisas boas, outra é produzir coisas boas.
O seu enigma ainda permanece. Até, talvez, aparecer outro Ezra Pound para decifrá-lo e mostrar às gerações seguintes o lugar de Pound, se é que o tem, na constelação dos grandes poetas e na literatura de todos os tempos.
Por Edilson Pereira
Paraná Online
Como crítico e tradutor é quase improvável refutar o que andou escrevendo, mas o lugar de Pound no panteão dos grandes poetas padece da atmosfera de suspense nunca desfeito.
Pound era exigente. Escreveu um romance, releu e jogou na lareira para não resistir à tentação de publicar algo sem a certeza de ser bom.
E dedicou boa parte da vida a escrever uma obra extensa e incompleta chamada Os Cantos (tradução brasileira de José Lino Grunewald), projetada para ser a Divina Comédia moderna, cheia de citações, algumas em grego.
Ele foi fazendo aquilo sem a certeza de que seria realmente o que almejava - uma nova obra máxima.O diacho é que não apareceu ninguém com estatura e respeito suficientes para ser levado a sério depois de dizer que Pound se ferrou e por qual razão.
Além de inconclusos, Os Cantos padecem do mal da incompreensão. E, pior ainda, da pouca leitura. Eruditos dizem que se trata de grande livro, mas não se esforçam em explicar; poucos se esforçam em entender e quase ninguém fala dele por aí, porque também não saberia explicar a razão de sair por aí falando de Pound.
Talvez falte a Pound alguém como ele, que olhou James Joyce e os escritos dele e saiu propagando aos quatro ventos que havia encontrado um gênio. Claro que Joyce gostou, mas também tratou de fazer seu marketing pessoal: afirmou que escrevia um livro (Ulysses) para dar trabalho aos professores de literatura pelos próximos duzentos anos.
Embora decodificado, o livro de Joyce ainda arranca cara feia de muito sujeito que tenta lê-lo. O certo é que Ulysses virou marco na história da literatura. Os Cantos andam pelos cantos.
Para que os caminhos de Ulysses e Os Cantos fossem tão diferentes, além de o segundo não ter um equivalente a Pound para alardear suas eventuais virtudes, contribuiu o comportamento de seus autores.
Enquanto Joyce levou uma vida meio dândi e não se metia em política - quando falou da Irlanda, ninguém se interessou, a Irlanda nunca despertou atenção de quem não fosse irlandês -, Pound meteu os pés pelas mãos.
Fez programas radiofônicos em defesa de Benito Mussolini e do fascismo. Aquilo não pegou bem. Todo mundo conhece a história. Mussolini se ferrou. Ele tentou fugir para a Alemanha, disfarçado de soldado alemão, com sua amante Clara Petacci.
A resistência descobriu e os dois foram executados e seus corpos pendurados de cabeça para baixo, expostos à execração pública. Destino parecido teve colaboradores de fascistas e nazistas.
Os humilhados e ofendidos estavam soltos e queriam vingança. Acusado de traição, Pound foi preso numa jaula feita com ferros retorcidos de um avião abatido e depois levado para os Estados Unidos.
E ficaria na cadeia o resto da vida se alguns advogados não provassem que o poeta era louco de pedra. Talvez até fosse. Pound fez cara de louco o resto da vida e tratou de manter a boca fechada.
Lugar de louco é no sanatório. Ele ficou treze anos num hospital psiquiátrico de Washington, até a acusação de traição ser retirada em 1958. Pound voltou para a Itália e até 1972 dedicou-se a concluir Os Cantos, tarefa iniciada em 1904.
Os brasileiros Augusto e Haroldo de Campos eram entusiastas dos métodos de Pound. Em uma carta endereçada a Augusto, Pound perguntou se o pessoal da USP não tinha interesse em contratá-lo como professor. A coisa deu em nada.
Quando morreu em novembro de 1972 aos 87 anos, Pound era uma espécie de meteoro que abriu um enorme sulco na superfície da literatura, e cuja obra magna permanecia incompreendida. Mas uma coisa era evidente. Pequeno Ezra Pound não foi.
A influência de Pound se estende sobre uma expressiva parte de tudo que foi revolução estética ou estilo na literatura moderna. Os seus métodos (paideuma) de garimpagem de textos elementares continuam quase as únicas referências para quem quer navegar no turbilhão de páginas literárias produzidas pela humanidade desde alguns milênios.
Sem contar que foi secretário particular de W. B. Yeats e de uma forma ou outra influenciou gente como James Joyce, E. E. Cummings, William Carlos Willians, T. S. Eliot, de quem cortou a maior parte do poeta The Waste Land, ficando melhor que o original e merecendo dedicatória do autor: ‘A Ezra Pound, o melhor artífice’. Se os grandes o reverenciavam, eles deviam saber o que estavam fazendo. Ou não?
Aliás, sobre Yeats, que tentou aprender esgrima aos 45 anos, Pound tem uma frase deliciosa: ‘Ás vezes dava a impressão de ser até mais idiota que eu’. É só uma frase.
Claro que de idiota Pound não tinha nada, apenas se deu mal com a política. Basta ler dois de seus livros de ensaios publicados no Brasil e que servem de guias para adentrar a boa literatura. ABC da Literatura (ABC of Reading, de 1934), em que o autor dá a sua definição de clássico. Para ele, livro clássico é aquele que fica jovem para sempre. Ou seja, um livro que todas as gerações leem e sempre acham algo interessante nele.
Parodiando Dalton Trevisan, ele era do tipo que achava que o nome do escritor é feito por sua obra e não por estripulias, causas políticas ou geniais golpes de marketing - hoje em dia tem muito disso.
Se a obra não o sustentar, o escritor ou poeta pode até se tornar uma figura notável, mas por outros motivos, não por sua literatura. Em outro livro de ensaios, A Arte da Poesia, ele dá conselhos para quem quer se meter a fazer poesia.
Conselhos que valem até hoje: ‘Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como ‘brumosas terras de paz’. Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Receie as abstrações.
Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã’. Era generoso ao orientar os jovens poetas. Muita gente que o leu deixou de passar vexame com poemas cretinos - e outros viraram grandes poetas.
Mais: achava que a poesia medíocre, no fim das contas, é sempre a mesma em toda parte. E em todas as línguas haverá poetas e poemas medíocres. E defendia a importância da literatura, como poucos: ‘A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia’.
E mais: ‘O povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de seu país e de si próprio’. O velho era terrível. E tinha um faro ainda mais terrível para coisas boas. Mas também devia saber que uma coisa é farejar coisas boas, outra é produzir coisas boas.
O seu enigma ainda permanece. Até, talvez, aparecer outro Ezra Pound para decifrá-lo e mostrar às gerações seguintes o lugar de Pound, se é que o tem, na constelação dos grandes poetas e na literatura de todos os tempos.
Por Edilson Pereira
Paraná Online
segunda-feira, 20 de julho de 2009
A poesia é traduzível?
Ivan Junqueira
À parte o ceticismo de alguns e a boa vontade de outros, a primeira exigência que se deve fazer a um tradutor de poesia é a de que ele seja um poeta, pois somente assim poderá enfrentar os desafios técnicos específicos desse gênero literário, como os do ritmo, da estrutura sintático-verbal, dos esquemas métricos e rímicos, da linguagem metalógica, do jogo de imagens e metáforas e de todos os outros elementos que constituem a retórica poética. Isto não quer dizer, necessariamente, que a tradução de poesia seja mais difícil que a dos textos em prosa, que têm também sua especificidade e suas armadilhas próprias. Lembro aqui a dificuldade que devem ter enfrentado os tradutores de Joyce ou Guimarães Rosa, para ficar apenas com estes dois. Mas há uma outra exigência, e não menos crucial: a do duplo domínio do idioma para o qual se irá realizar a tradução e do idioma em que se encontra escrito o texto a ser traduzido. São as assim designadas, respectivamente, língua de chegada e língua de partida. Talvez o erro capital neste ponto seja o fato de que, de um modo geral, saber o tradutor o seu próprio idioma nacional é considerado com o devido apreço, muito embora seja verdade que a ninguém é concedido o miraculoso privilégio de bem conhecer uma língua estrangeira sem conhecer a sua própria. Aliás, pelas oportunidades e confrontos vocabulares e sintáticos que oferece, a tradução transforma-se num veículo de notável eficácia para o conhecimento da própria língua nacional. E aqui caberia relembrar o que disse Goethe sobre o assunto: "Wer nur eine Sprache Kennt, Kennt nichts. Eine Sprache ist ein neur Geist." Em bom português: "Quem sabe somente uma língua nada sabe. Uma língua é um novo espírito."
Digestivo Cultural
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À parte o ceticismo de alguns e a boa vontade de outros, a primeira exigência que se deve fazer a um tradutor de poesia é a de que ele seja um poeta, pois somente assim poderá enfrentar os desafios técnicos específicos desse gênero literário, como os do ritmo, da estrutura sintático-verbal, dos esquemas métricos e rímicos, da linguagem metalógica, do jogo de imagens e metáforas e de todos os outros elementos que constituem a retórica poética. Isto não quer dizer, necessariamente, que a tradução de poesia seja mais difícil que a dos textos em prosa, que têm também sua especificidade e suas armadilhas próprias. Lembro aqui a dificuldade que devem ter enfrentado os tradutores de Joyce ou Guimarães Rosa, para ficar apenas com estes dois. Mas há uma outra exigência, e não menos crucial: a do duplo domínio do idioma para o qual se irá realizar a tradução e do idioma em que se encontra escrito o texto a ser traduzido. São as assim designadas, respectivamente, língua de chegada e língua de partida. Talvez o erro capital neste ponto seja o fato de que, de um modo geral, saber o tradutor o seu próprio idioma nacional é considerado com o devido apreço, muito embora seja verdade que a ninguém é concedido o miraculoso privilégio de bem conhecer uma língua estrangeira sem conhecer a sua própria. Aliás, pelas oportunidades e confrontos vocabulares e sintáticos que oferece, a tradução transforma-se num veículo de notável eficácia para o conhecimento da própria língua nacional. E aqui caberia relembrar o que disse Goethe sobre o assunto: "Wer nur eine Sprache Kennt, Kennt nichts. Eine Sprache ist ein neur Geist." Em bom português: "Quem sabe somente uma língua nada sabe. Uma língua é um novo espírito."
Digestivo Cultural
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sábado, 20 de junho de 2009
Entre um verso e outro
"Cartas de ontem", é um livro de poesias do britânico Richard Price. Lá, ele reúne poemas que versam sobre o amor com uma linguagem contemporânea sem deixar de ser lírica. Em seu lirismo, o autor dialoga com poetas como o italiano Catulo, e trafega pelo discurso amoroso do filósofo francês Roland Barthes.
O intuito da tradução do livro ao português é de proporcionar ao leitor brasileiro maior contato com a produção recente de poesia contemporânea do Reino Unido. Segundo a tradutora Virna Teixeira, "temos uma latência muito grande de traduções". Ela explica que a importância de trazer novos autores do Reino Unido é a mesma de levar novos autores brasileiros para lá. E acrescenta:
- Lá, tem menos pessoas ainda traduzindo poesia brasileira para o Reino Unido. Esse intercâmbio é importante e é preciso dar um primeiro passo.
Richard, o autor, nasceu na Inglaterra e cresceu na Escócia. Formado em jornalismo, inglês e biblioteconomia, é hoje o responsável pelo setor de coleções modernas britânicas na British Library, em Londres.
Poeta, prosador e tradutor, Richard se dedica também a ser editor da revista literária Painted, Spoken. Aos 43 anos, tem dois livros publicados com boa repercussão de público e crítica. Um de seus livros, o Lucky Day, foi indicado para o Whitbread Poetry Prize em 2005, um importante prêmio de literatura contemporânea.
Virna Teixeira é poeta e tradutora. Formou-se em medicina e, nas horas vagas, é neurologista. Obteve em 2001 uma bolsa Chevening do British Council para mestrado na University of Edinburgh, Escócia. Lá, acabou se interessando pela poesia escocesa. Frequentou algumas leituras e cursos paralelos. Tomou contato com a obra do poeta Edwin Morgan. "Fiquei impressionada e comecei a traduzir poesias dele", lembra.
Publicou dois livros de traduções de poesia escocesa: Na Estação Central, de Edwin Morgan (editora UnB, 2006) e a antologia Ovelha Negra (Lumme Editor, 2007), que teve apoio da Cultura Inglesa e Scottish Arts Council.
Enquanto produzia a Ovelha Negra, conheceu a obra do Richard e entrou em contato com ele. Por sugestão do poeta, Virna também lançou sua antologia em Londres. Desde então, a tradutora-médica deixou clara sua intenção em traduzir mais trabalhos do Richard. E assim o fez.
Leia a prévia
Terra Magazine 19.06.09
O intuito da tradução do livro ao português é de proporcionar ao leitor brasileiro maior contato com a produção recente de poesia contemporânea do Reino Unido. Segundo a tradutora Virna Teixeira, "temos uma latência muito grande de traduções". Ela explica que a importância de trazer novos autores do Reino Unido é a mesma de levar novos autores brasileiros para lá. E acrescenta:
- Lá, tem menos pessoas ainda traduzindo poesia brasileira para o Reino Unido. Esse intercâmbio é importante e é preciso dar um primeiro passo.
Richard, o autor, nasceu na Inglaterra e cresceu na Escócia. Formado em jornalismo, inglês e biblioteconomia, é hoje o responsável pelo setor de coleções modernas britânicas na British Library, em Londres.
Poeta, prosador e tradutor, Richard se dedica também a ser editor da revista literária Painted, Spoken. Aos 43 anos, tem dois livros publicados com boa repercussão de público e crítica. Um de seus livros, o Lucky Day, foi indicado para o Whitbread Poetry Prize em 2005, um importante prêmio de literatura contemporânea.
Virna Teixeira é poeta e tradutora. Formou-se em medicina e, nas horas vagas, é neurologista. Obteve em 2001 uma bolsa Chevening do British Council para mestrado na University of Edinburgh, Escócia. Lá, acabou se interessando pela poesia escocesa. Frequentou algumas leituras e cursos paralelos. Tomou contato com a obra do poeta Edwin Morgan. "Fiquei impressionada e comecei a traduzir poesias dele", lembra.
Publicou dois livros de traduções de poesia escocesa: Na Estação Central, de Edwin Morgan (editora UnB, 2006) e a antologia Ovelha Negra (Lumme Editor, 2007), que teve apoio da Cultura Inglesa e Scottish Arts Council.
Enquanto produzia a Ovelha Negra, conheceu a obra do Richard e entrou em contato com ele. Por sugestão do poeta, Virna também lançou sua antologia em Londres. Desde então, a tradutora-médica deixou clara sua intenção em traduzir mais trabalhos do Richard. E assim o fez.
Leia a prévia
Terra Magazine 19.06.09
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Escritor Didier Lamaison vira imortal da Academia de Letras
O escritor e tradutor francês Didier Lamaison foi eleito Sócio Correspondente da Academia Brasileira de Letras (ABL) e ocupará a Cadeira nº1 do quadro, tornando-se um imortal. Lamaison substituirá o escritor português António Alçada Baptista, que morreu em dezembro de 2008.
Tradutor de Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e Augusto dos Anjos, entre outros poetas brasileiros, Didier Lamaison é autor do romance noir .
A eleição para o quadro de Sócio Correspondente da ABL aconteceu na sessão da tarde desta quinta-feira (4), quando Lamaison recebeu 31 votos.
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Tradutor de Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e Augusto dos Anjos, entre outros poetas brasileiros, Didier Lamaison é autor do romance noir .
A eleição para o quadro de Sócio Correspondente da ABL aconteceu na sessão da tarde desta quinta-feira (4), quando Lamaison recebeu 31 votos.
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